Ódio em Rede

O momento político, as fake news e a produção de mentes afetadas em pleno século XXI

São momentos terríveis estes que passamos. Nas redes sociais observo comentários que dão um sabor extremamente amargo a vida. Entristece de verdade. Alguns comentários são tão absurdos que dariam cadeia se fossem atos, alguns dariam cadeia mesmo sendo somente comentários. Este momento de polarização que estamos, ascendeu o que há de pior em nossa sociedade e ao redor do mundo não está diferente. Perdemos a capacidade de ter empatia ao próximo.

Quando eu era pequeno, ficava pensando como a temperatura afetava o humor das pessoas. Todos ficavam agitados e indispostos. Pelas ruas tentávamos não nos falar, não nos tocar, pouco interagir. Gritos, barulhos, sirenes e carros de som davam o toque a mais para estarmos sempre na defensiva.

Estamos no meio de um turbilhão de insanidade, todos os lugares onde vou as pessoas falam coisas que há meses atrás eu só lia nas caixas de comentários dos portais de notícia. Exemplo, um mecânico que me atendeu dia desses jurou que a Marielle Franco era envolvida com uma facção criminosa do Rio e que ela merecia morrer como morreu. Eu ouvia aquilo enquanto observava um símbolo religioso cintilando numa corrente prata pendurada em seu pescoço.

Agora a pouco me chega a notícia que dois ônibus da caravana de Lula foram atingidos por tiros no Paraná e eu fico sem conseguir nem imaginar onde vamos parar. A civilidade nos abandonou e esse ódio crescente dá o tom da caminhada, a frente me parece haver um abismo de barbárie. Vamos adjetivando e os atos isolados agora já são atos frequentes.

A questão agora não é ser de direita ou conservador, a questão é que a polarização fez de nós estúpidos e logo estaremos mais estupidos e armados. Estupidos, armados e motivados! A descrença na justiça se tornou um caminho de pólvora até um paiol de radicalismos. As pessoas estão ficando inconseqüentes e estão tranquilas, pois boa parte das nossas forças de segurança não tem setores de inteligência para investigar, são mais e mais fake news, fake profiles, insanidade e balas de verdade.

Um rapaz confuso e raivoso discutia comigo criticando livros que nunca leu, embasando-se em outro que provavelmente nunca abriu e se abriu não entendeu, citando frases que mais pareciam pertencer ao Pinochet. Ele não tinha 18 anos, penso eu. Falava sobre economia, como quem acha que economia se resolve com operações matemáticas básicas.

Acho que estamos inventando uma coisa nova, muito parecida com o Fascismo, porque acho que esse termo não cabe aqui, talvez chamar essa “coisa” de Fascismo seja um erro, porque fica parecendo um grande exagero. A narrativa que explicou o fascismo, tornou ele distante demais do jovem raivoso que fala sobre livros que nunca leu. Não há mais um povo brasileiro do qual todos fazemos parte, há agora um “nós e eles”, e eles são nossos inimigos, eles são demônios.

Não consigo concluir se tudo isso foi um plano, e no meio do caminho perdeu o controle ou o plano era exatamente neste momento estar sem controle para que começássemos a lutar uns contra os outros e nos matar. Uma a uma nossas instituições se provam falidas e a sensação de desamparo é gigantesca. Assim o terreno fica fértil para a histeria, mesmo quando estudos provam que o Brasil é o segundo país do mundo onde há mais falta de conhecimento sobre a realidade.


Perigos da Percepção 2017
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